Ótima entrevista do espanhol Rafael Benitez, técnico do Liverpool, publicada no site Universidade do Futebol.
Entrevista: Rafael Benitez – terceira parte
Espanhol que comanda o Liverpool fala sobre planejamento de treino, sistema tático, plataformas de jogo e dá dica aos treinadores mais jovens
Equipe Universidade do Futebol
Nesta terceira parte da entrevista concedida pelo treinador espanhol Rafael Benítez, encaminhada ao público brasileiro a partir de uma parceria entre a revista Soccer Coaching International e a Universidade do Futebol, entraremos definitivamente nos aspectos de treinamento preferidos e desenvolvidos pelo comandante da tradicional agremiação inglesa.
Além de falar sobre o planejamento de seus treinos e como conduz o período prévio de uma temporada européia, o manager dos Reds indica a plataforma tática delineada em Anfield Road a partir de uma realidade local. Bem diferente da época de Valencia, no início dos anos 2000.
“O estilo típico de se jogar na Inglaterra é o 4-4-2. Às vezes, você tem que saber a tradição e tem que jogar nesse sentido. Depois de dois ou três anos, você pode indicar jogadores que entendem outro sistema, mas no começo, nós tentamos usar o sistema com o qual eles estão familiarizados”, explicou Benítez.
“Nós temos um plano no começo da temporada. Ele é um pouco parecido todo ano, mas sempre pode mudar baseado no time que você tem e nas coisas que você vê nos jogos. Nós também temos um plano na parte física. Mas, o mais importante é o plano tático, porque depois de cada jogo, você tem que mudar alguma coisa”, enumerou.
A exemplificação de Rafa se dá desta forma: caso haja a proposta de um treino de marcação por pressão e se observam problemas no time para tal execução, pensa-se em uma forma de realizar mais atividades nesse quesito.
Dentro do plano estratégico, ao lado dos 20 profissionais que o cercam na comissão técnica, o treinador busca, sempre que possível, inserir o máximo de aspectos do jogo, cobrindo por todos os lados o “ano oficial do futebol”.
“Nós fazemos pequenos jogos, mas não temos nada novo para oferecer aos técnicos”, limitou-se a dizer, com modéstia, Benítez. “Nós não podemos dizer que é a minha função, mas isso não é verdade. Todos aprendemos por muitos anos e todos nós aprendemos com diferentes pessoas”.
Benítez foi questionado sobre o estilo de comando e condução do grupo de jogadores. A publicação holandesa se pautou em dois referenciais “compatriotas”: Leo Beenhakker e Louis van Gaal.
Don Leo treinou a equipe de seu país na Copa do Mundo de 1990 e na Eurocopa de 1992. Além disso, acumulou passagens por Ajax e Feyenoord, pelo Real Madrid e pelos selecionados de Trinidad e Tobago e Polônia. O lema desse gerente de pessoas em relação aos seus comandados: “deixe-os sentir confortáveis”.
Já Van Gaal adota um tratamento mais direcionado ao jogo, sem se apegar muito ao atleta, especificamente. Ex-jogador e atual treinador do Bayern de Munique, nunca obteve grande destaque na primeira função.
Na chefia da comissão técnica, faturou a Copa da Uefa e a Liga dos Campeões com o Ajax e o bicampeonato espanhol com o Barcelona. Como Benítez se auto-critica, em um paralelo com esses dois? Basicamente um misto.
“Equilíbrio é a chave. Você tem que achar o equilíbrio correto, mas eu acredito que isso também depende da personalidade do técnico. Por exemplo, como um treinador de goleiros, a relação com os jogadores é tão importante quanto ter muito mais contato individual com eles. Além disso, você tem que pensar que, como treinador, você não pode mudar muitas coisas. O jogador também tem que ter personalidade para entender como fazer certas ações para realizar o trabalho. Como treinador, você tem que entender a personalidade para entender os jogadores, também”, definiu o espanhol.
Na Premier League, competição em que os atletas são muito fortes e há um embate físico e constante entre os mesmos, a maneira com que a comissão técnica do Liverpool lida no processo de contratação é indicando nomes que possam competir dentro dessas circunstâncias.
“No primeiro ano [2004], nós terminamos em quinto lugar no Campeonato Inglês e vencemos a Champions League, mas nós éramos muito fortes na zaga. No segundo ano, indicamos Crouch e Reina – então nós nos tornamos mais fortes fisicamente ainda para poder jogar na Premier League”, relembrou Rafa. “Se você enfrenta um time pequeno que é muito agressivo, você não pode jogar a bola para trás: tem que atuar com bolas longas e ganhar as segundas bolas. Mas isso é muito diferente se você joga com o Arsenal, por exemplo”.
Para chegar próximo ao ponto ideal, a pré-temporada tem uma relevância muito grande nas mais diversas variáveis técnicas e físicas. Benítez busca com seu staff praticar todos os aspectos do jogo. E mais: tenta explicar para os jogadores quais são as bases desse jogo pretendido.
“Nós tentamos explicar quando devem permanecer onde estão, quando devem pressionar. Quando tentamos treinar um contra-ataque, por exemplo, no qual o time tem que jogar rapidamente, definimos exercícios em que os jogadores tenham que tocar a bola com mais precisão e de modo mais acelerado. Isso é simples. Mas, atualmente, existe o problema de que os jogadores têm muitas coisas para controlar”, apontou o comandante.
Ele se refere ao desgaste emocional e temporal dentro de um calendário apertado, com muitos compromissos oficiais importantes. “Às vezes, quando você joga duas partidas na semana, você não tem tempo para praticar tudo isso. Portanto, a pré-temporada é um dos períodos mais importantes da temporada para o treinador”, completou Benítez, que realiza muitos jogos de posse de bola com o objetivo de conseguir realizar o passe: uma característica marcante de seu Liverpool.
No time que geralmente se defende bem, em um 2-4-4, cuja marcação intermediária ofensiva balanceia horizontalmente acompanhando a movimentação da bola e forma triângulos defensivos para pressionar o rival do setor que tiver a posse da bola, o nível de concentração é muito elevado. Indubitavelmente, ali há o dedo do espanhol que completa nesta temporada 22 anos de carreira como treinador.
“Você precisa ter paixão e só tem que trabalhar duro. Se tiver talento e trabalhar duro, no final, você terminará no topo. Se você não é bom o bastante, mas trabalha duro, ainda pode chegar a um bom nível. Mas se você é realmente bom e não trabalha duro ou não tem paixão, é claro que ainda há chance de se fazer isso, mas dificilmente alcançará o topo”, finalizou Benítez.
Fonte: Soccer Coaching International – www.soccercoachinginternational.com
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