“Me sinto um privilegiado”. Chegar a vestir a camisa amarelinha num Mundial não é para qualquer um. Menos ainda para quem viveu uma realidade que nem os sonhos infantis permitiam ir tão longe. É o caso de Ciro. “Sempre quis ser jogador de futebol, mas não achava que fosse conseguir chegar à Seleção. Foi muito difícil. As pessoas não sabem um terço do que eu passei”, adianta o atacante de 19 anos.
Nascido em Salgueiro, a mais de 500km do Recife, Ciro precisou provar que o sertanejo é mesmo um forte. Chegou à Ilha do Retiro em 2006 para viver os piores e os melhores momentos da sua vida.
“Sempre fui muito apegado à minha família e fui obrigado a ficar isolado num alojamento. Via meus companheiros indo pra casa num feriado e eu tendo de ficar no Recife por causa da distância”, explicou.
Ele revelou que chegou a desistir do sonho de virar atleta profissional por três vezes. “Numa delas, os meus amigos foram me buscar na rodoviária e trazer de volta pro alojamento”, conta. Não era apenas a saudade que minava a força do sertanejo Ciro.
“A estrutura não era das melhores. Sofri com o banheiro, com a alimentação”. Diversão quase não existia. A televisão não funcionava direito e ele quase não tinha dinheiro. O pouco que tinha vinha do seu pai. Escondido de Ciro, ele deixava R$ 150 com um funcionário do clube, que era repassado ao atleta como se fosse uma ajuda de custo do Sport. Tudo para não deixar o filhão desmotivado.
“A pior hora era depois do treino, no final da tarde. Não tinha o que fazer. Ia pra praça na frente do clube e esperava a noite passar até a hora do sono chegar. No quarto, era só muriçoca”, diz.
Quase dois anos depois, as coisas começaram a mudar. Os 34 gols em 29 jogos do estadual de juniores de 2008 mostraram a Ciro que a ralação podia estar valendo a pena. Principalmente após o técnico Nelsinho o chamar para treinar com os profissionais.
“Não era só a estrutura física que deixava a desejar. Subi também com deficiências de fundamentos. Tive a sorte de encontrar um treinador que tinha paciência e me ensinou muita coisa que eu sei hoje”, rasgou elogios a Nelsinho.
Na sua primeira participação no time profissional, Ciro mostrou que era um jogador diferenciado. Acabara de entrar em campo diante do Ipatinga, ainda pelo primeiro turno do Brasileirão, e já sofria um pênalti. Pouco depois, marcava um golaço. A comemoração era em forma de lágrimas.
“Numa noite, passou o filme inteiro de dois anos de sofrimento. Entrei em campo naquele dia pensando na minha família, minha atuação teve muito de psicológico. Botei na minha cabeça que jogaria por eles e deu certo”, revelou.
O sol do dia seguinte raiou diferente para Ciro. “Me chamaram para renovar logo o contrato”, conta. Logo depois, o alojamento passava a virar coisa do passado e ele ia morar num confortável apartamento alugado pelo clube.
Com o passaporte carimbado para o Egito, Ciro sabe que o futebol ainda tem muito o que lhe oferecer. “Dizem que quem vai pra um mundial não volta para o Brasil. O futuro só depende de mim”. Não dá para duvidar.
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